Propõe-se a discutir o sentido da vida sob uma ótica Bush-Vovó Mafaldiana, com muita gesticulação
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graça: Marco Aurelio Brasil Lima
pão nosso de cada dia?: advogado
crê no quê? adventista do sétimo dia
besame mucho? nhana Tatiana - casado, bem casado sim sinhô
gol de quem? sãopaulino da gema
sua por quem? Eduardo, born at 06/11/2002
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Quarta-feira, Julho 28, 2004
Bob Violence
Nos quadrinhos de Howard Chaykin (agora não lembro se a grafia está certa) American Flagg, todo dia a cidade é invadida por uma turba destruidora, sempre no mesmo horário. O herói da história percebe que isso acontece sempre exatamente após a exibição de Bob Violence, um enlatado tipo Rambo high tech. Descobre-se, então, que o dito cujo está cheinho de mensagens subliminares instigando à violência.
Suprimido o programa do ar, a turba cai num estado letárgico, como se uma droga da qual estivessem dependentes lhes fosse negada.
O que seria se nos subtraíssem nossa dose diária de violência?
* * * * * * * * *
Meio da tarde, ouve-se estampidos e um colega vaticina: isso é tiro. Ninguém deu muita trela, temos obras de quatro enormes torres bem ao lado, decerto era algo lá, mas dali a pouco alguém entra dizendo que roubaram o notebook de alguém que adentrava o prédio. Esse alguém esboçou uma reação e os ladrões passaram a pipocar a fachada do prédio, os furos estão ali e não me deixam mentir.
* * * * * * * * * * *
A reação à violência é curiosa. De repente aquilo tudo deixa de ser ficção distante para ser o pesadelo da realidade. "Não foi algum lugar obscuro da metrópole, foi o MEU prédio que foi alvejado".
Começou uma interminável corrente de e-mails internos, todos avisando de novas modalidades de roubo, fraudes, técnicas de bandidos, causos pavorosos, enfim, paranóia coletiva. No elevador, empregados de outras empresas comentavam a existência de uma seguradora que segura notebooks. As meninas querem chegar mais cedo e sair mais cedo, para não pegarem seus carros na penumbra, e meio que coincidentemente todo mundo quer ir almoçar de turma.
No caso, a dose a mais de violência, ao invés da dose a menos de Bob Violence, causou um pavor que nasce da nossa impotência, da nossa fragilidade, do nosso inconformismo com o que julgamos uma coisa bárbara e extremamente ofensiva. Tirou-nos da letargia. E não foi bom, derramou fel no peito.
* * * * * * * * * * * * *
Não foi a primeira vez. Outra feita levaram o notebook de um auditor da Price Waterhouse que vinha nos visitar. E estamos num plácido e bucólico bairro cheio de prédios belos e modernos, restaurantes, praças... E ladrões, tão onipresentes quanto bancas de jornal.
* * * * * * * * * * * * * * *
Em 30 anos de São Paulo experimentei a violência na pele desde muito cedo. Primeiro, pivetes roubando "um barão" na rua, outros roubando relógios. Depois uma arma na cabeça em um ônibus (o cara achava que eu era office boy de empresa e estava com a mochila recheada de vales-transporte), um sequestro com direito a disparo de arma de fogo na direção da minha cabeça (milagre de Deus, compadre, milagre de Deus. Qualquer dia conto a história toda). Dois carros roubados.
Ela também respinga ao lado, afetando amigos das formas mais traumáticas.
* * * * * * * * * * * * * * *
E, por multiplicar-se a iniquidade, o amor de muitos esfrirá.
Jesus Cristo, falando dos "últimos dias".
* * * * * * * ** * * * * * * *
Mas e se a violência nos fosse suprimida? Não seria o caso de que, agora, nos doesse os olhos tanta paz?
17:32
Ok, eu permito
que você escreva alguma coisa

Segunda-feira, Julho 26, 2004
Naquela segunda-feira, em pleno Saloon de Jack Cabeça de Jabuti...
A melancolia rondava o ambiente.Juanito Manos Leves mais uma vez sentiu que o ar andava carregado. Viu Jimmy Mãos de Borboleta borboletear no piano a clássica da fossa kitsch "I got no money, would like to have some hope" no andamento muito mais arrastado que o original. Viu o xerife Bill "Murros" Wilkinson suspirar entre uma e outra talagada de seu absinto com cachaça. Viu Rosa, a Rumorosa, sentada numa mesa distante demais do centro das atenções, folheando uma edição antiga de "La coquette flaneur". Viu Paco, o cucaracha, afiando lenta, muito lentamente seu canivete "suisso". Viu o velho cego Barney Boob resmungar muito baixinho: "Suflair é um real".
Coçando a cabeça angustiado com tanto desânimo de começo de semana, Juanitos Manos Leves teve uma idéia. Saiu correndo pela porta-balcão, o que levou Jimmy Mãos de Borboleta a comentar:
- Omessa!
Logo, contudo, ele estava de volta gritando: atenção, atenção! Todos olharam e ele então arrancou de sobre si a pantalona que ostentava, mostrando que por baixo dela usava uma legítima camiseta da seleção argentina de futebol, com o nome D¿Alessandro atrás.
Todos riram muito, gritaram vivas, e o xerife chegou mesmo a disparar sua arma para o teto enquanto Jimmy Mãos de Borboleta tocava "The largest joy of my joifful world" e Rosa, a Rumorosa, dançava um cancan sobre o balcão.
* * * * * * * * * *
Como eu não passei pelo saloon de Jack Cabeça de Jabuti e, a despeito da performance brasileira no futebol à tarde, e de meu timinho de basquete à noite, hoje continua sendo segunda-feira. Somo tudo: notícias deprimentes captadas pelas antenas na semana passada + carro batido + noticiário de campanhas eleitorais e o que consigo é lembrar desta frase de Os irmãos Karamazovi, de Dostoievski:
"Penso que se o diabo não existe, e por conseguinte foi criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem e semelhança."
17:42
Ok, eu permito
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Sexta-feira, Julho 23, 2004
Manilha
Ele abriu a porta e deu com ela ali, batucando o chão com a ponta do pé, os braços cruzados, aquela maledetta ruga na testa e os olhos fixos na TV, como quem presta muita atenção.
- Aonde estava?
Ele fechou a porta atrás de si, com a cabeça meio embaralhada, precisava pensar bastante antes de responder. Analisou detidamente a sua mão. Virou um sete. Manilha é dama. ¿Vai ao baile acompanhado, parceiro¿? Tendo ou não tendo dama na mão, o parceiro responderia: ¿ô! Minha horta tá regada¿. Mas ele não tinha parceiro agora, era só ele e a oponente ali na frente, parecendo que estava vendo a coisa mais interessante do mundo na TV.
- Oi, amorzinho! essa saída era clássica. Ganhava tempo pra não só ver o que tinha na mão, mas também pra tentar imaginar os trunfos que ela teria ali, escondidos, embaixo daqueles braços cruzados com ar de rebeldia. Ela só soltou um "hamf", e deu aquela olhadinha mortal pra ele.
- Ué, você sabe que eu tava no Geraldinho, eu deixei recado no celular... - ele começou bem a rodada, botou um três, que sempre causa um certo impacto. Era preciso ganhar a primeira rodada, em caso de empate na segunda ele levava o ponto pra casa.
- Que recado, Edinaldo, você sabe muito bem que o celular tá desligado!
Hora de dar aquele teatral tapa na testa, com um "puuuuuuuuutz" que vale por mil palavras. Ela amarrou o jogo, o que significa que quem fizer agora leva. Ele torna. Mas o quê? Que carta?
- Você foi na tua mãe, não foi? ele perguntou e isso equivalia a um "truco!" bem trucado, com força e convicção, do tipo que intimida mesmo. E intimidou, ôch, ela descruzou os braços e deu uma amanteigada na voz:
- Fui... Mas qual o problema? Isso te dá desculpa pra chegar à uma e meia da manhã em plena quarta-feira, ô celerado?
Pegou pesado. Isso era assim como uma dama de copas bem dada, daquelas jogadas com desprezo. E mais, era um grito de "Seis, ladrão!".
O jogador tem que fazer um certo tipo. Ele anda, joga o paletó em cima da mesa, pára à frente dela com as mãos nos bolsos e só então diz:
- É que eu acho que a senhora deveria ter pensado um pouco antes de correr pra baixo da saia da mãe, e lembrado que estava com a chave do seu maridinho, porque assim ele não teria esperado na porta durante duas (ele ia falar três, mas conteve-se a tempo porque exageros nessas horas podem complicar) horas na porta de casa antes de decidir esperar na casa do amigo, que coincidentemente estava organizando um truquinho. E note que seu maridinho não deixou de avisar, apenas, no, digamos, calor do contratempo, esqueceu-se que a senhora não estava com seu celular...
Silêncio na sala. Ela não era uma jogadora. Tinha sido um zap na testa. Seis pontos no bolso.
Se ela fosse jogadora iria perceber o blefe. O argentino que jogava com eles diria: "á blasfemando!" Ele sempre trocava as bolas... Ele foi pro banheiro sem mais palavra. Agora era esperar a próxima rodada.
13:22
Ok, eu permito
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Quinta-feira, Julho 22, 2004
Mostramos o nosso melhor futebol e agora é correr pro abraço
O bom de aparecer no Blogs of Notes é que completamos nossas marcas cabalísticas de visitas mais rapidinho. Olhaí, já bati a marca das 25.000. Ora de comemorar à moda da casa, a saber, com biscoituda. E gostei tanto da última que vou repetir a dose. Nós merecemos. Laetitia Casta, ora pois.
* ** * * * * * * * * * * *
Cumpadre Vanildo levanta a hipótese de o BloggerMan estar pagando algum favor excuso com indicações. No caso, amigo, creia-me, a situação deveria ser inversa. Aparecer no BoN às vezes pode ser castigo.
11:53
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Terça-feira, Julho 20, 2004
Minha pequena história do rock
Viva Kant. Graças a ele eu posso contar a História sob minha ótica pessoal e dar de ombros pro resto do mundo.
Pois bem, o rock completou 50 anos e a mídia recebeu uma enxurrada de textos a respeito. Gostei particularmente das matérias publicadas na arta Capital desta semana, onde um tal de Sean O'Hagan, que escreve para The Observer, deu uma visão sua dos fatos mais marcantes desses 50 anos (Marcelo Nova faz o mesmo focando apenas o Brasil), começando com a gravação de Elvis para "That's all right Mamma", em 54, passando por Bill Halley, Chuck Berry, James Brown, Dylan, Beatles e por aí afora até desembocar em Spice Girls, Eminem e Beyoncé. Ele já vai logo advertindo que a visão é totalmente subjetiva e sujeita a pedradas, e mostra o que Caetano Veloso dizia: "tudo é rock". Ele, de cabelo gigante e roupa estranha em pleno Brasil il il dos anos 60/70 já era rock. Os puristas vão xingar, espernear, arrancar os cabelos, mas a verdade é que tanto Bee Gees como Nirvana são expressões que se enquadram na maternal moldura do rock, o que me leva a crer que muito pouco ou nada do que se compõe hoje em dia no Ocidente possa escapar do rótulo genérico rock, pois foi por ele influenciado.
Uma parte gigante dos tópicos ali da Carta Capital era grego pra mim. Nunca ouvi falar em "The Miracles" e confesso que nem sabia que Iggy Pop tinha saído duma banda chamada The Stooges. Percebi que minha história personal do rock batia em apenas três pontos das listas do tal O'Hagan e do Marcelo Nova: The Smiths, Legião Urbana e Ira!. Minha história, não dos 50 anos do rock, mas dos pouco mais de 20 que eu acompanhei, seria a seguinte:
1982. Paul MaCartney e Stevie Wonder gravam Ebony and Ivory, música que recentemente entrou numa dessas listas que saem a toda hora como uma das piores composições de todos os tempos. O libelo anti-racismo, cujo breguíssimo clip foi exibido no Fantástico, me fez ter o gosto despertado para música. Eu tinha nove anos de idade e descobri então um dos meus amores mais intensos e aos quais tenho sido mais fiel. A música não era ruim, contudo. MacArtney e Wonder são dois dos melhores arranjadores do mundo, pop é com os caras mesmo.
Não lembro muito bem o que eu comecei a ouvir a partir disso. Lembro vagamente dum grupo chamado Asia, que tocava Heat of the Moment, uma outra banda que nem lembro qual era, tocando I love rock'n roll(procurar por este nome no Google seria um pouco contraproducente) mas o fato seguinte verdadeiramente marcante aconteceu no ano seguinte, 1983 quando o tal do Michael Jackson resolveu gravar uma música chamada Thriller, que tinha um clip imenso, com uma historinha no começo; coisa de gênio inovador, Thriller tinha uma coreografia de monstros de tirar o chapéu e se hoje parece brega e datado é porque foi copiado à exaustão. Até hoje parece que a marca desse vinil não foi batida, continua sendo o disco mais vendido de todos os tempos.
1985. Era uma tarde chuvosa e eu esperava dentro do carro que meu pai voltasse não sei da onde quando o rádio começou a tocar Índios, da Legião Urbana. O primeiro impulso foi de mudar de estação, já que eu odiava música brasileira em geral, mas a temática da canção, a bela voz do Renato Russo e aquela letra de sentido não tão facilmente apreensível me deixaram intrigado. O violãozinho do final sobre um som de vento, logo após a frase de efeito "nos deram espelhos e vimos um mundo doente" acabaram por colocar abaixo meus preconceitos, do mesmo jeito que pouco tempo mais tarde a leitura de Olhai os Lírios do Campo faria com relação a literatura brasileira.
1986. O pequeno neonazista que morava no meu peito adolescente encantou-se com os versos da politicamente incorreta Pobre Paulista, do Ira! A música era menor, o sentimento nem se fale, mas as virtudes incontestáveis de músicas como XV anos (até hoje minha predileta e que inspirou um dos meus primeiros contos, um dos poucos que continuo achando bons mesmo olhando de cima do morro do tempo), Casa de Papel, Dias de Luta, a virtuose da guitarra do Edgard Scandurra, a batida não convencional da bateria de André Jung, tudo me fez tornar um fã ardoroso da banda. Me dava um certo orgulho de metido a intelectual gostar duma banda que tinha um vocalista ruim e não fazia as baladinhas facilmente palatáveis, embora aparentemente rebeldinhas, de bandas como Titãs e Barão Vermelho, que também causavam algum frisson na época. Ira! me acompanhou por anos e anos a fio. Só fui perder a meada de seus discos quando eles começaram a ficar muito ruins, lá pela altura do disco "Músicas calmas para pessoas nervosas". Aparentemente, todos os neurônios da banda foram queimados por substâncias de uso proibido.
1989. Foi só então que descobri The Smiths, que já estava nos últimos dias de banda. Fossa adolescente, solidão, insegurança, lirismo, poesia e genialidade musical. Precisa dizer mais muita coisa? Ah, quanta louça eu não lavei ouvindo Smiths? Last night I dreamt that somebody loved me poderia ser apontada como "o hino nacional da minha adolescência". How Soon is now, Half a person, Asleep, There is a light that never goes out, Rubber ring, Girlfriend in a coma, I started something (I couldn't finish, Reel around the fountain, Please please pleas let me get what I want, bá, é uma obra-prima atrás da outra.
No vácuo que a dissolução dos Smiths criou, cada semana tinha uma banda alcunhada pela impresa de "os novos Smiths". Evidentemente que ninguém conseguiu ser isso e não apareceu mais nenhum Smiths de fato. Uma banda que chegou mais ou menos perto e que foi responsável por alguns bons momentos foi The Stone Roses. Aí já estamos em 1992 e a musicalidade soft e requintada desses ingleses embalou meus primeiros anos de faculdade. Na mesma época Depeche Mode e a veterana House of Love (responsáveis por uma das melhores músicas que conheço, Christinne) também marcaram presença e, graças à influência de minha brima Anny Shoegazer (que eu conhecia só como Ana Paula mesmo) e que flertava com música gótica e outros lados B, travei contato com a excelente Inspiral Carpets, sobre a qual já falei aqui.
Mas aí veio o grunge, com o qual eu não me identificava nadica e que coincidiu com o tempo em que conheci de fato uma pessoa chamada Jesus Cristo. Isso me distanciou do velho e bom rock e passei longos anos sem ouvi-lo muito, tirando uma ouvidinha esporádica de Smiths ou Ira!. Nesse tempo enchi o bucho foi de música religiosa de primeiríssima qualidade e de MPB.
2001. Tempo de descobrir Pato Fu e Skank. Boas pedidas, mas com um ranço de "esse negócio de rock já foi melhor" na boca.
2004. Hoje eu escuto um pouco coisas como Los Hermanos, Dido, Michael W. Smith, Third Day, Sonic Flood, Steven Curtis Chapman e tô esperando pra ver o que vem por aí.
15:38
Ok, eu permito
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Sexta-feira, Julho 16, 2004
Desce
Ele saiu da sala fechando a porta atrás de si. Como o doutor pedira. A sala de espera estava mais escura que o consultório, mas ainda assim pipocavam em seus olhos umas pequenas explosões brilhantes que o atordoavam.
- Fausto de Mefisto, pode entrar ¿ a secretária chamou. Um homem largou a Caras na mesinha de centro, levantou-se e andou rumo ao consultório. Só então Arnaldo, que ainda estava ali, parado e atordoado, percebeu que devia se mexer, dar passagem. A secretária lhe sorria. O outro paciente entrou, o baque surdo da porta serviu como um empurrão e Arnaldo sorriu também, automático.
Arnaldo acomodou melhor o paletó sobre o braço e saiu. Sempre em movimentos lentos, chamou o elevador.
- Sinto muito.
Ele ouvia ainda. Sinto muito. Plim, a luz verde indicava ¿desce¿.
- Desce! o ascensorista confirmava. Sempre em passos lentos, Arnaldo entrou, segurando o paletó e o envelope do laboratório junto ao peito, e a porta do elevador fechou.
Havia um vácuo na mente de Arnaldo, custava a entender o que acontecia à sua volta, apenas de tempos em tempos ele ouvia sinto muito, algumas vezes na sua própria voz, que repetia, um eco das outras vozes, quando era a voz aguda e anasalada do médico. E em gestos lentos ele passava a mão pela testa, massageava as têmporas.
Arnaldo ganhou a rua e parou. Não sabia muito bem se devia subir ou descer. Um menino sujo se aproximou e pediu um trocado.
Arnaldo o olhou aparvalhado. Custou a decodificar a imagem: menino sujo, e a mensagem: tem um trocado, tio? Disse um ¿ah¿, pegou o paletó e do bolso de dentro tirou um chocolate. Os olhos do menino brilharam, ele pegou a barra e virou as costas sem dizer nada.
De repente Arnaldo percebeu que faltava algo e chamou o menino com energia. O menino virou-se com os olhos arregalados de susto, e Arnaldo então lhe estendeu o envelope do laboratório. O menino não entendeu, mas pegou e Arnaldo desceu a rua, deixando o paletó arrastar no chão, sempre em passos muito lentos.
* * * * * * * * * *
Não é lá um jeito muito bom de terminar uma semana, né? Desculpe, prometo melhorar. Isso foi publicado originalmente no finado Spamzine, que os deuses da literatura o tenham.
* * * * * * * * * *
Só para constar, uma digna do Homem Chavão: ao lado da casa onde me hospedei em Canela-RS, havia um lugar chamado "Lã Pião e Maria Bonita - Malhas". Juro.
14:04
Ok, eu permito
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Quarta-feira, Julho 14, 2004
O devogado que veio do frio
Eu mês. Audiência na quinta em Montenegro-RS, outra em Porto Alegre na segunda. Milhas dando sopa no Smiles da Varig, patroa meio borocochô por conta de tudo que orbitou em torno da questão gravidez inexistente, feriado na sexta em São Paulo, amigo em Gramado dizendo venha!, bote tudo no caldeirão e terás a mesma conclusão que eu.
* * * * * * * * * * *
Passamos, patroa, patrãozinho e eu, quatro ótimos dias subzero ou quase isso. Chegou a menos cinco a temperatura no domingo, segundo os termômetros oficiais. A hospitalidade gaúcha foi excelente e minimizou o efeito nefasto do frio. O tal amigo que me recebeu eu conhecia apenas pela internet, foi bárbaro o encontro.
Causos e impressões rasteiros:
a. no lindíssimo parque Caracol, em Canela, parada obrigatória para quem vai à região por causa da cascata, uma das mais lindas do mundo, havia um trenzinho no qual pagamos 4 reais a cabeça para embarafustar-nos. Não sabia que mais do que dar uma voltinha simples, o tal trenzinho nos levava a uma cidade fantasma. Prisão, igreja, funerária, saloon, tudo habitado por caveiras em trapos que ocasionalmente mexem a cabeça e dão tchauzinho. Ficamos apreensivos quando o Eduardo aproximou-se do Saloon, onde caveiras jogavam baralho e tomavam umas e outras ao som de uma musiquinha country. Viva a inocência infantil. Ele olhou as caveiras, achou que elas estavam olhando para ele e, batendo o dedão no peito, disse: "Dudu", como se estivesse se apresentando. Ele fez isso o tempo todo, sempre que alguém parava para olhar para ele com aquele ar derretido que crianças assim inspiram.
b. Café Colonial? Já foi melhor. Encontrei uma mesa farta de frituras e carne suína e com apenas três tipos de pães, mais uns bolos secos ou abarrotados de chantilly. Blergh.
c. Na churrascaria com danças típicas gaúchas, Eduardo viveu momentos de celebridade. Adorando o som caipora da banda que tocava ao vivo, começou a dançar. Não satisfeito, achou que deveria fazê-lo em cima do palco. Foi a sensação do restaurante. Todos os milhares de turistas do norte e nordeste que a CVC tinha botado lá dentro naquela noite vieram tirar fotos dele e proferir interjeições de ternura extrema. O garoto percebeu o frisson que causava e começou a interromper a dança apenas para posar para as fotos. Quando a música acabava, olhava indignado pra banda e gritava uma das poucas palavras que já sabe usar com destreza: "mais"! É o meu guri. Aliás, é o guri da Tatiana, porque eu odeio dançar, não faço a menor idéia de como se faz isso e me sinto um camelo com artrite toda vez que tentou dar uma chacoalhada no esqueleto.
d. e ainda achei por lá uma ex-colega de coral das priscas eras, agora com um casal de filhos lindo. Ê, mundo véio sem portêra.
e. mais trinta minutos por lá e acho que incorporaria o sotaque local definitivamente. Mas bá.
14:24
Ok, eu permito
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Quinta-feira, Julho 08, 2004
Coisas de louco
"Eles sabem que a guerra é uma coisa tão cruel que convém mais aos animais ferozes que aos homens; tão furiosa que as próprias Fúrias, segundo os poetas, a vomitaram sobre a terra; tão funesta que arrasta consigo as desordens mais terríveis; tão injusta que geralmente é estimulada pelos mais infames bandidos; tão ímpia que é inteiramente contrária a Jesus Cristo; no entanto, esses vigários de um Deus de paz negligenciam qualquer outra ocupação para se entregar inteiramente a essa arte abominável. Vêem-se às vezes velhos decrépitos demonstrar nessas guerras um vigor de homem jovem, gastar quantias imensas para sustentá-las, expor-se com um ardor infatigável a todos os trabalhos que elas exigem, subverter sem escrúpulo as leis, a religião, a paz, e tornar-se enfim os flagelos do gênero humano. Acreditariam que há aduladores sagazes que ousam dar a essa fúria evidente os belos nomes de zelo, de piedade e de coragem, e que empregam toda a sutileza de seu espírito para provar que quem saca a espada e a enterra no peito do irmão pode no entanto conservar, no coração, aquela caridade perfeita para com o próximo que Jesus Cristo tanto recomendou a seus discípulos?"
Não, Erasmo de Roterdam fala aqui dos papas de seu tempo, e não de Bush e seus asseclas. Impressionante (in Elogio da Loucura).
*********************
Ele também fala, referindo-se a artistas metidos a besta:
"Quanto menos talento possuem, maior seu orgulho, sua vaidade, sua arrogância. Todos esses loucos encontram, porém, outros loucos que os aplaudem; pois, quanto mais uma coisa é contrária ao bom senso, mais ela atrai admiradores ; o que há de pior é sempre o que agrada a maioria; e nada é mais natural, posto que, como já vos disse, a maior parte dos homens são loucos. Ora, como os artistas mais ignorantes estão sempre muitos satisfeitos consigo mesmos e gozam da admiração da maioria, eles procederiam mal se fizessem um esforço infinito para adquirir verdadeiros talentos, que, afinal, apenas serviriram para fazer dissipar a idéia vantajosa que têm do próprio mérito, para torná-los mais modestos e para diminuir em muito o número de seus admiradores."
Falou e disse, cumpadre.
11:33
Ok, eu permito
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Quarta-feira, Julho 07, 2004
Running Man
Minha viagem no Gol alugado da Hertz fez um corte longitudinal no estado do Rio Grande do Norte, pela estrada que liga Natal a Fortaleza. A paisagem começa bonita, exuberante, mas o verde vai rareando e o solo arenoso transparecendo. Num determinado momento aparecem pedras, muitas pedras, que servem, à beira da estrada, como outdoors naturais para anúncio do Café Kimimo ou do Frigorífico Sócabritos. Ao sul da estrada, uma serra baixa me acompanha, com belos montes parecidos com paredes de um canyon. Quando ela acaba, a paisagem é tomada por uns montes pontudos.
Durante todo o trajeto, borboletinhas brancas ficam pululando de um lado para o outro da estrada e, eventualmente, alguma delas resolve matar-se contra o pára-brisas, num inócuo protesto contra a globalização. Até um passarinho eu atropelei, coitado. O carro acabou todo pintado.
Viajei quase três horas e cruzei por nada mais que umas quatro cidades. No mais, deserto total. Mesmo as cidades, só o são no mapa que eu comprei em Natal. As placas "perímetro urbano" e "fim do perímetro urbano" distam uns dez metros uma da outra, geralmente.
Assu, não, é maiorzinha e à entrada um pórtico de ferro me faz saber que estou chegando ao "São João mais Antigo do Brasil", pois ali se comemora a festa do santo há 278 anos. A decoração típica ainda enfeita postes e fachadas: bandeirolas e balões coloridos. Mesmo sendo, como eu disse, maiorzinha, Assu (que sofre de uma terrível crise de identidade, não sabe se é Assu ou Açu, encontrei o nome grafado dos dois jeitos numa porção de lugares) se resume a duas avenidas asfaltadas cercada por ruas de paralelepípedo apertadas.
A audiência aconteceu num tipo de PoupaTempo de lá, muito ajeitadinho, com funcionários uniformizados que prestam um atendimento excelente.
Na volta, uma charrete puxada por um jegue quase me faz bater num simpático caminhão que vinha a milhão em sentido contrário. É que o jegue empacou no meio da estrada. Além disso, tive problemas com uns urubus, que traçavam um boi atropelado à beira da estrada. Outra coisa que compunha a paisagem, eram os cabritos, pastando ali bem ao lado.
Como ninguém é de ferro, consegui chegar a Natal com tempo suficiente para dar uma passada na praia de Ponta Negra e tomar uma água de coco. Deixei a meia e o sapato no carro, dobrei a calça e tasquei o pezão branquelo na areia. Foram 25 minutos de graça.
* * * * * * * * * *
De um Rio Grande para o outro. Amanhã tô me bandeando pra Porto Alegre. Como teria outro compromisso por lá na segunda, vou tentar me espraiar em Gramado este final de semana. Não admire se eu andar meio distante.
15:34
Ok, eu permito
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Segunda-feira, Julho 05, 2004
Agora, de vorta ao aperrêio
Pois sim. Estou voando para Natal daqui a pouco. Este blogue começou como um amontoado de cretinices nonsense e está-se transformando em diário de viagem.
Desta vez, contudo, vai ser camelação. Chegamos lá de madrugada, levantamos cedo, pegamos a estrada pra mítica Assu (que eu só descobri que existia de verdade graças ao recente programa do PP na televisão, que entrevistou o prefeito de lá). 190 km de Natal, bate e volta. Volta e pega avião. Enfim, running man, mas sem aquele colant, que é pra evitar o assédio.
* * * * * * * * *
Pára o baile, tchê. Parece que não estou mais grávido. Sim, sim, pois veja você.
Ontem rolou um sangramento. Corremos com os corações nas mãos, para o hospital.
- Não deve ser nada, fica fria - disse a médica - vamos fazer um ultrassom.
Feito.
- Ué, mas você não disse que tava grávida?
- Sim, isso mesmo.
- Aonde? Não tem nada aí!
Hein? Estamos mais perdidos que cego em tiroteio. O capítulo final da novela está por vir.
* * * * * * * *
E por falar em novela, o vale a pena ler de novo está exportando o sucesso internacional Persela, a Vesga, deste blogue para o Ernestinho e Suas Mulatas Besuntadas. Sucesso de público e de crítica. Reviva aquelas emoções únicas.
15:16
Ok, eu permito
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Sexta-feira, Julho 02, 2004
De volta à fumaça
Se você estava rangendo os dentes e se esforçando para ocupar a mente com bonequinhos de marshmallow, tudo pra não sentir inveja, pode parar. Estou de volta a São Paulo, levei duas horas do aeroporto até minha casa, encontrei a patroa ardendo em febre e hoje acordei de madrugada para tentar escapar do trânsito habitual de sexta-feira. Tudo isso respirando nosso ar inigualável (slogan da prefeitura, não aprovado na última hora, infelizmente: São Paulo - aqui você vê o ar que respira.
*****************
Mas fui brindado com uma quinta-feira ensolarada em Recife. Disseram que dei sorte, já que o tempo andava macambúzio nos últimos dias. A audìência terminou logo e me descobri com quatro horas inteirinhas antes do meu vôo de volta. Nham Nham. Toquei pra belíssima praia de Boa Viagem. Não vi nenhuma belle de jour, mesmo porque ainda era de manhã, mas a verdade é que essa deve ser uma das mais lindas praias urbanas desse nosso mundinho. Uma faixa de recifes a uns dez metros da areia faz com que boa parte de sua extensão seja uma piscinona de água azul. Delícia andar por ali admirando o mar, respirando a brisa, observando os casais de alemães com mulatas, os tão branquelos como eu esparramados ao sol e torcendo intimamente pra não ficar todo vermelho. Além de lastimar, mais uma vez, a ausência da Tatiana pra estar ali ao lado, fazendo comentários sobre as pessoas que passavam, me dando uns beijos, pegando na minha mão ou simplesmente olhando quietinha na mesma direção que eu.
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Enchi o bucho de tapioca. No hotel tinha uma tiazinha que fazia a dita cuja numa chapa rapidinho. Você montava como quisesse, podendo meter lá dentro queijo coalho, goiabada, leite condensado, côco e outras coisas sublimes. Que mané crepe, isso é que é rango. E o café-da-manhã ainda tinha pamonha, creme de abacate e uma infinidade de maravilhas cemporcento brazil. oh yeah.
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Engraçado foi me flagrar tentando um sotaque da terra pra mor de não ser passado pra trás na hora de comprar aquelas inescapáveis toalhas de mesa bordadas pra mãe, as cunhadas, a tia, a avó, etc etc etc.
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E, pra não ser monotemático, reproduzo aqui excelente texto postado pela Giuliette:
No início do governo Geisel, houve uma certa hesitação sobre qual seria o novo valor do salário mínimo. Até que depois de várias discussões o Mario Henrique Simonsen finalmente definiu: Cr$ 76,80.
Muito se discutiu sobre por quê daquele valor meio exótico, qual seria a base para sua definição. E eis que alguns dias depois "O PASQUIM" aparece com uma de suas capas que se tornaram históricas: um sujeito fantasiado de Mario Henrique Simonsen numa sala de aula, escrevendo no quadro-negro:
"1 cafezinho.... 1 pãozinho...." e a manchete "Pasquim explica o cálculo do salário mínimo". Lá dentro, a conta:
1 cafezinho ...... Cr$ 0,12
1 pãozinho ....... Cr$ 0,04
4 cafezinhos e 4 pãezinhos por dia são suficientes para alimentar muito bem uma pessoa. Então, uma pessoa precisa por dia de
4 x 0,12 + 4 x 0,04 = 0,48 + 0,16 = Cr$ 0,64.
Uma família média tem 4 pessoas, logo uma família média precisa por dia de:
4 x 0,64 = Cr$ 2,56.
O mês tem em média 30 dias, portanto:
30 x 2,56 = Cr$ 76,80
Chegamos ao valor de Cr$ 76,80.
Claro que o cálculo esquecia tudo o mais; por isto era absurdo.
Fiz fazer a mesma conta para o novo salário mínimo. Bom, o cafezinho custa cerca de R$ 0,70 e o pãozinho francês deve estar a R$ 0,20. Portanto, uma pessoa precisa de:
4 x 0,70 + 4 x 0,20 = 2,80 + 0,80 = R$ 3,60 por dia por pessoa
4 x 3,60 = R$ 14,40 por dia por família
Ou seja, o salário mínimo, pelos "critérios"do PASQUIM deveria ser hoje de:
30 x 14,40 = R$ 432,00
R$ 432,00 !!!
Alguns colegas argumentaram que num boteco mais simples dá para encontrar cafezinho a R$ 0,50. Mesmo assim, uma pessoa ainda precisaria de:
30 x 4 x (4 x 0,50 + 4 x 0,20) = R$ 336,00
R$ 336,00 ! Isto pelo absurdo critério dos 4 cafezinhos e 4 pãezinhos do Pasquim de 30 anos atrás !...
É incrível mas o salário mínimo atual é de R$ 260,00. Abaixo de 4 cafezinhos e 4 pãezinhos por dia !!!
09:28
Ok, eu permito
que você escreva alguma coisa
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